Poems from When I'm Not Around

Poems from When I'm Not Around

 

Photo: Annie Spratt, Unsplash.

antes do sono chegar são seus cabelos
que se espalham sobre as pernas
as que não tenho mais antes mesmo
do sono antes as portas estão vigiadas a
solidez dos cadeados uma ressaca de mar
a viagem entre caminhos que a água cava
na areia o sal a vivência que adere
à pele antes do sono chegar estou acordado
perambulo novamente respondo a alguém que
me chama na rua em frente procuro
minhas pernas as que perdi entre águas o sal
a solidez que retorna calcário mar antes
são as imagens um mar de cabelos sobre
as pernas o sono interrompido
a resposta estou indo o poste queimado
na rua em frente a beirada de uma guia
seguir os caminhos fincados no cimento as pernas
onde estão onde você está quem
me chama na rua em frente no escuro da rua
em frente vigiada pelo poste queimado mesmo
antes do sono chegar desperto o corpo estaria morto
e como seria estar morto senão um gole o último
quando me penso morto
penso em alguém fazendo amor com você
quando não estou por perto penso
na solidez dos cadeados na necessidade de
perder as pernas embaixo dos lençóis

quando me penso morto
penso em alguém fazendo amor com você
quando não estou por perto

Charles Bukowski

 

*

um ponto qualquer em que dispor as partes do corpo
as partes móveis e desenvoltas do corpo como se
presas a um cabide a procura por um gancho um anzol
para prender as correntes o ponto de represamento
baixar as comportas barrar a fluidez a paralisia
é apenas um efeito desse retorno ininterrupto retomar
o ponto de represamento baixar as comportas de concreto um
anzol para dependurar a corredeira estancar
o corpo suspenso por um gancho a procura da suspensão em que
o movimento se retém reflui recua
voltar

 

*

para que voltar meu deus para quê ela perguntava da janela
para que este retorno agora qual seria a razão qual seria
ela gritava os gritos corriam fluíam uma
corredeira ininterrupta como estancar como fazer parar um
açude uma barreira por favor eu gostaria de pedir eu pedia
mas este era ainda o ponto de suspensão era a
paralisia por que para que parar por que novamente agora
quais as respostas qual a continuidade da resposta
era uma procura obstinada por um gancho uma
ligação uma quebra parada retorno
o refluxo da maré o mar lá longe o céu clareando parece até
que choveu durante a noite

 

*

o que falo nunca é o que falo
e sim outra coisa ouve me ouve
daí deste silêncio deste longe longe
a primeira vez que ouvi foi isto longe
uma voz secreta balbuciando ouve
ouve daí você pode me ouvir era a
pergunta como ficar por um instante aí
no silêncio em torno da pergunta
sem resposta é como estar sem
resposta o que falo nunca é exatamente
o que falo sereno limpo calmo esperar
longe longe a primeira vez que te
ouço é a primeira mas uma voz secreta
um assobio você pode girar em torno
a pergunta não tem resposta como ficar
ficar aí o silêncio em torno é sim
outra coisa o que falo ouve daí
ouve-me você certa vez uma resposta
diria que uma resposta não é jamais
uma resposta o que falo falo daqui
sem calcular certa vez seria isto um
assobio descentrar procurar não é
bem este o conteúdo forma e conteúdo
forma conteúdo separar separar
certa vez esta a pergunta ouvir longe
longe sem resposta ficar este espaço
ouça este espaço em torno este silêncio
vazio escuro espera o que falo qual é
a pergunta qual sereno calmo esperar
qual é senão assobio alto baixo ficar
fluir fluir sem retorno um assobio longe longe

Ouve-me, ouve meu silêncio. O que falo nunca é o que falo e sim outra coisa.

Clarice Lispector


 

before sleep comes your hair
spread across my legs
legs I no longer have before
sleep before doors are watched
over the strength of locks an undertow
journey between paths the water digs
into the sand salt existence that sticks
to the skin before sleep I am awake
again I wander I answer one who
calls me from the street in front I look for
my legs legs I lost between the waters salt
strength that comes back chalky sea before
are images a sea of hair across
my legs interrupted sleep
the answer I am going burnt pole
across the street the curb across the street
follow paths sunk in the cement my legs
where are they where are you who
calls me from across the street the dark across
the street watched by the burnt pole right
before sleep comes awake the body would be dead
what would it be like to be dead if not a sip the last sip
when I think of myself dead
I think of somebody making love to you
when I’m not around I think
of the strength of locks the need to
lose my legs beneath the sheets

when I think of myself dead
I think of somebody making love to you
when I’m not around

Charles Bukowski

 

*

anywhere to arrange the parts of the body
the movable agile parts of the body as if
captive to a hanger looking for a hook a fish hook
to tie the currents the dam
to lower the floodgates plug the flow paralysis
just an effect of this uninterrupted return resume retrieve
the dam lower the concrete floodgates a
fish hook to hang the rapids stanch
the body hung from a hook in search of suspension where
movement restrains itself reflows recedes retreats
come back

 

*

why come back why my god she asked from the window
why come back now for what for this for what
she cried cries flowed
uninterrupted rapids how to stanch to plug a dam how to make it stop
a dam please a barrier I would like to ask I asked
but this was still the point of suspension
paralysis why stop why now for what again
what the answers what the continuity of the answer
it was a stubborn search for a hook a
tie a break stop return
ebb tide sea there far sky clearing it seems
it rained last night

 

*

what I say is never what I say
but something else hear hear me
from over there this silence this far far
the first I heard was this far
a secret voice babbling hear
hear over there can you hear me was the
question how to stay for an instant there
the silence all around the question
without an answer is how to be without an
answer what I say is never quite what
I say still clean calm wait
far far the first I hear
you is the first time still a secret voice
a whistle you can circle around
the question has no answer how to stay
stay there the silence all around is
something else what I say hear there
hear me once you would say
an answer I would say an answer never is
an answer what I say say from here
not once calculating would this be a
whistle decenter search it’s not
quite this the content form and content
form content separate separate
there once was this the question hear far
far without an answer stay this space
hear this space around this silence
empty dark wait what I say what is
the question what still calm to wait
what if not a whistle high low stay
flow flow with no return a whistle far far

Hear me, hear my silence. What I say is never what I say, but something else.

Clarice Lispector

 

Translated from the Portuguese to English by Janet Hendrickson

Languages

Mario Bellatin
Number 13

In our thirteenth issue, we feature two innovative, hard-to-define figures of Latin American letters: from the present, Mexican writer Mario Bellatin, and from the past, Chilean writer Juan Emar. Together with these authors, we highlight Latin American theatre for the first time with a script by Ramón Griffero, Nahuatl-language poetry by Martín Tonalmeyotl, plus interviews, book reviews, exclusive previews, and more from writers including Rosario Castellanos, César Aira, and Salgado Maranhão.

Table of Contents

Editor's Note

Featured Author: Mario Bellatin

Dossier: Juan Emar

Interviews

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Theatre

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